1
Sábado, 19:55.
— JOE, ABRE A PORTA!
— Calma, tô indo.
Elisa entrou na casa rapidamente, estava visivelmente abalada.
— O que aconteceu?
— Ele me bateu, Joe. Aquele filho da puta me bateu.
O sangue de Joe ferveu quando ouviu aquelas palavras saírem da boca de sua irmã.
— Senta aqui, vou pegar uma água.
— Eu não acredito que tô passando por isso, cara. Porra, como eu pude ser tão idiota.
— Toma, bebe devagar e me conta do começo.
Joe puxou uma cadeira e sentou de frente para sua irmã. Agora, olhando com calma, pôde analisar seu estado. O lado esquerdo de seu rosto estava vermelho, um vermelho que ele conhecia bem. O golpe que ela levou foi forte.
— Eu e Julio fomos para a casa nova hoje pela manhã. A obra tinha acabado recentemente, então íamos aproveitar o dia por lá pra amanhã irmos pra mamãe no almoço.
— O dia foi normal, tomamos café na rua e compramos coisas no mercado lá no centro pra fazermos uma comida em casa mesmo.
— No almoço, eu tinha pedido pra ele me ajudar porque não estou com muita força nos últimos dias. Vinte e oito semanas de gravidez, não tenho como fazer as coisas sozinha. Eu queria muito mas não consigo.
— Então eu acabei reclamando. Eu estava lá com a barriga no fogão enquanto ele estava na sala assistindo um jogo.
— Ele só ficou falando: “Não tá vendo que eu tô assistindo o jogo?”
— Bom, ele não me ajudou. Fiz tudo sozinha.
— Ele só pegou um prato, sentou na sala e continuou assistindo aquela merda de jogo.
— Agora de noite, eu tinha parado pra fazer a janta e foi a mesma história. Ele tava assistindo alguma merda na televisão e eu na cozinha fazendo comida.
— Então eu reclamei de novo.
— Eu disse: “Porra Julio, eu sou sua mulher, tô grávida do teu filho e você não consegue parar cinco minutos pra me ajudar a fazer a nossa janta.”
— Ele levantou do sofá muito puto, veio direto na minha direção e deu um soco no meu rosto, bem aqui — olha.
Joe analisou novamente o local do golpe.
— Eu fiquei desnorteada, meio que em um transe, sem entender o que tinha acontecido. Quando eu “acordei”, só peguei o celular, minha chave e vim direto pra cá.
Joe permanecia imóvel, contido.
— O que você quer fazer agora?
— Eu não sei, Joe. Eu não sei. Eu nunca imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer comigo.
— Estamos juntos há tantos anos, como ele pode fazer isso comigo? — disse Elisa com lágrimas nos olhos.
— Você não tinha como imaginar isso, Elisa. Não se culpe.
— Eu sei, poxa. Mas caramba, daqui a pouco vou ganhar essa criança. O que eu vou fazer?
— Nós vamos dar um jeito, como sempre. Independente da situação, sempre damos um jeito. Juntos.
— Vou pegar mais um pouco de água — disse Joe, levantando.
Elisa ficou pensativa, refletindo sobre o que poderia e deveria fazer.
— Toma, bebe mais um pouco.
— Obrigada!
Bebeu devagar, pensativa.
— Eu acho que vou dar outra chance — disse Elisa.
Parecia que uma veia ia estourar na testa de Joe quando ouviu isso.
— Você tem certeza? Pensa direito, com calma. Uma agressão nunca é única, a chance é grande dele fazer isso de novo com você.
— Eu acho que não, Joe. Ele não é assim. Eu conheço ele a minha vida toda e essa foi a primeira vez que ele deu qualquer indício de violência. Eu nunca o vi matar nem mesmo uma mosca. Eu também não quero ter esse filho sozinha, sabe? Acho que eu consigo resolver isso com ele, ao invés de só tomar uma atitude tão drástica.
Joe, sentado à frente da irmã, encostou-se na cadeira e respirou fundo, movimentando a cabeça para trás. Depois de alguns segundos quieto, disse:
— Tudo bem, o que for melhor pra você. Mas acho que pelo menos hoje você deveria não se comunicar com ele. Eu te levo pra casa da mamãe. Dorme lá e amanhã vocês conversam. Que tal?
— Sim, eu também pensei nisso. Posso deixar o carro aqui e você me leva lá?
— Claro, sem estresse. Só deixa eu pegar minha carteira.
2
Domingo, 01:25.
Batidas na porta.
— Será que ela esqueceu a chave?
— Tô indo, calma aí — disse Julio.
Ao abrir a porta, viu seu cunhado Joe.
— Joe? O que tá fazendo aqui nessa hora, mano?
— Oi, Julio. Desculpa a hora, posso entrar? — disse Joe, já entrando na casa.
— Claro, fica à vontade.
— Caraca, a casa ficou realmente linda. Parabéns por essa conquista, cara — disse Joe, transitando pela sala de estar.
— Obrigado, mano, demorou bastante mas pelo menos o resultado foi melhor do que o esperado — respondeu Julio, ainda em confusão.
— Mas me conta, o que aconteceu pra você vir aqui esse horário? Não é como se fôssemos vizinhos, você mora a pelo menos trinta minutos de carro.
— A Elisa foi lá em casa hoje, me contou o que aconteceu — disse Joe, indo em direção à cozinha.
— E o que ela disse?
— Disse que vocês tiveram um desentendimento e que você acabou acertando ela. — disse Joe, encostado no balcão da cozinha, de braços cruzados.
— É, foi mais ou menos isso mesmo que aconteceu. Mas cara, hoje ela tava impossível, não teve jeito. — falou Julio, indo em direção à geladeira. Pegou uma cerveja e entregou outra a Joe.
— Não esquenta, eu te entendo. Tem dias que a Elisa é impossível mesmo. Ela provavelmente te levou ao seu limite, certo? — disse Joe, dando um gole na cerveja.
— Nossa, mano, você não tem noção. O dia inteiro reclamando. Viemos aqui pra aproveitar, saca? Só pra curtir o dia, curtir a casa nova e no domingo ir pra sua mãe. Hoje, no caso. Mas não, o dia inteiro reclamando porque eu não tava ajudando ela, sendo que poderíamos simplesmente ter comprado algo pra comer na rua. — exclamou Julio, finalizando sua cerveja.
— É foda, cara. Mas relaxa, depois de hoje você não precisa mais se preocupar com esse tipo de situação. Certamente ela aprendeu a lição.
— Tomara, cara. Porque senão eu vou precisar pesar mais a mão. Quer mais uma cerveja? — disse Julio, abrindo a geladeira e pegando mais duas.
— Claro. Manda outra. — Segura.
Antes mesmo que Julio pudesse se virar para entregar a cerveja, foi acertado por um golpe no queixo.
3
Domingo, 03:17.
— Hrrmmph!
Julio estava acordando. Estava amordaçado, tentando falar. Seus olhos mostravam medo e confusão.
— Mmmhphh!
— Xiu, silêncio. Eu estou terminando de arrumar as coisas — disse Joe.
Joe esticava algo que parecia uma lona de plástico transparente. A sala agora estava coberta por esse material de ponta a ponta. Julio estava preso no sofá, amarrado e amordaçado por cordas e tecidos que impossibilitavam sua movimentação. O plástico cobria toda a superfície abaixo dele até as extremidades da sala. A televisão estava ligada, com o som no máximo.
— Mmmhhrrph!
— Certo, agora estamos prontos — disse Joe, se aproximando de Julio.
— Você agrediu minha irmã, minha família. Por isso, você vai morrer hoje.
— Você é lixo e lixo precisa ser jogado fora.
— Mas antes, preciso que você preste atenção.
— Está prestando atenção, Julio?
— Mrrf! Mmph! — tentou Julio, impossibilitado de falar.
— Ótimo — disse Joe, aproximando-se mais dele.
— Quando você chegar do outro lado, lembre-se de correr.
— Corra!
— Porque quando eu chegar lá, seja quando for este momento, eu vou atrás de você.
— Você não vai pagar apenas em vida, você vai pagar pela eternidade.
— Porque eu não vou te deixar descansar nem por um segundo sequer.
— Entendeu?
— MMMMMMRRHHHPP!
Julio se debatia, se contorcia, mas estava muito bem preso.
— Ótimo. Até logo.
Joe puxou uma lâmina que estava na lateral da cintura e, com um movimento horizontal, cortou a garganta de Julio em um movimento limpo. O sangue esguichou em um jato carmesim, marcando todo o plástico que cobria o cômodo. Joe ficou parado, olhando nos olhos daquele homem que, aos poucos, deixava de existir.
Poucos minutos depois, ainda observando, notou que não havia mais vida nos olhos daquele homem. Rapidamente se levantou, andou em direção à cozinha e ligou todas as bocas do fogão. Voltou para a sala de estar, abriu a porta ligeiramente e pegou a mochila que estava encostada na lateral perto da entrada.
Retirou suas roupas ensanguentadas e as colocou dentro de um saco preto. Vestiu as roupas que pegou na mochila. Retirou de dentro da mochila velas e uma caixa de fósforos. Posicionou as velas próximo à televisão, do lado oposto à cozinha, e as acendeu. Olhou para aquele cenário uma última vez, verificando se tudo estava posicionado corretamente e também para ter uma última lembrança daquele indivíduo que um dia foi seu cunhado. Tudo estava correto.
Saiu pela porta da frente com a mochila nas costas e não olhou para trás.